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A rapariga de olhos grandes e cabelo preto
Capítulo III
Natal. Passava com a tia, com a vizinha da tia e com o grande D. Era a família que tinha.
A vizinha olhava sempre de soslaio para o grande D. e a conversa era todos os anos a mesma.
- Não percebo muito bem o que fazes na vida.
- Nem eu.
Riu-se.
Ela não desistia.
- Mas diz lá mesmo o que fazes.
- Coisas com computadores. Dá para os gastos.
Dava para muito mais que os gastos. O grande D. vivia numa cave por opção. Gostava da escuridão, dizia que a sombra o iluminava. Quis dar-lhe dinheiro em tempos mas nunca aceitou. Amigos, amigos, dinheiro à parte, ouvia a tia dizer muitas vezes. E tinha razão.
Conhecia o grande D. do tempo da secundária. Era um excluído por ser diferente. Começaram a falar e passados 25 anos conheciam-se do avesso.
- D. Maria, deixe lá o grande D. em paz. Ele é muito discreto.
A vizinha lá se calou.
A tia tinha duas empregadas vestidas a rigor que mesmo no natal serviam a consoada. A tia era rígida com elas. Não desculpava lapsos.
Começavam com o bacalhau e as couves. Seguiam-se as rabanadas e azevias. Por fim, um porto para a tia, um licor de maracujá para a D. Maria e whiskey para o grande D.
Bebia um bagaço que lhe enchia a alma, dava três pequenos tragos, recostava-se na cadeira vitoriana e olhava para as molduras em cima do piano de cauda que já não tocava. Ficava preso às imagens dos pais e dele pequeno, a imagem da alegria.
Voltava a si e jogavam à sueca, a tia bem tentava o bridge sem sucesso. Longe iam os tempos dos serões de bridge em Londres.
Saíam de casa da tia por volta das 23h e iam até um bar. Era tradição.
- Olha lá, como vai a Rosa de espinhos?
- Muitas pessoas a lerem.
- Bom, pá.
- Grande D., será que algum dia vou ter um livro publicado?
- Antes disso, tens de plantar uma árvore e ter um filho. Brindemos a isso.
- Plantei uma nespereira quando era miúdo. Antes do puto, tenho de encontrar a mãe do puto.
- Novo brinde a isso.
Calou-se por momentos. Atirou.
- Ainda pensas nela?
- Aqueles olhos grandes atormentam-me pá. Onde andará? Melhor, quem é ela? Não sei nada.
- Sabes o mais importante.
O grande D. estava embalado. Com os copos, falava pouco. Assertivo, no entanto.
- Ai sei?
- Queres que a encontre?
Olhou-o e ficou sério. O grande D. encontrava tudo e todos. Sentiu-se enjoado da bebida. Iam no terceiro copo.
- Deixa lá isso. Isto passa-me.
Tinham decorrido quase três meses. E lá no fundo, ele sabia que não passaria.