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O meu Pai

  • Foto do escritor: Palavras de Sol
    Palavras de Sol
  • 31 de ago. de 2020
  • 1 min de leitura

O meu pai era um bom ouvinte. Daqueles que ouvia. Se julgava não saberei pois era metido com ele próprio. Nunca o ouvi a fazer um julgamento de alguém. Calava muitas vezes, havia ali um trejeito de contenção.

Não gargalhava. Ria pouco. Em momentos de convívio era diferente. Apreciava esses momentos. Rejubilava. Falava muito. Tinha sempre algo a dizer. Fosse do vinho, da obra literária, da terra perdida nos confins de Portugal. Construtivo. Apesar de não ter o dom da palavra por apressado de pensamento era um pedagogo. Apanhando-lhe o jeito saía de todos os momentos com ele a saber algo novo.

Nós eramos as suas meninas. Sensível na génese, aprimorou ainda mais a sensibilidade connosco. Emocionava-se num ápice. Olhava para ele e via os olhos reluzentes. Apreciava programas de natureza. A terra estava lá. E o meu pai era um homem da terra não fosse um Beirão. Da terra do queijo da serra. Do frio. Do inverno rigoroso. Sabia mungir uma vaca, apanhar azeitona e tantas outras coisas da terra.

O meu gosto pelas palavras cruzadas veio dele. E pelas palavras também. Escrevia um português imaculado. Apreciava poesia. E em festa dizia os textos dos poetas. E os seus. Fazia rimas. Simples. Certeiras.

Gostava do silêncio. Tal como gostava do mar. Banhava-se na sua forma peculiar, de costas, braços abertos, tal barco a remos. Caminhava muito ao longo da praia. Ou nos passeios da cidade. Sabia estar em qualquer situação. Uma adaptabilidade nata. Que poucos conseguem.

Era um homem grande de estatura, caixa torácica e de mãos. E era acima de tudo um grande homem. Que nos enriquecia e nos faz falta.


 
 
 

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1 comentário


Eugénia Brites Santos
Eugénia Brites Santos
21 de jan. de 2021

Simplesmente magnífico! Adoro o estilo, escrito com alma , amor e ternura. Delicioso! Parabéns!!!

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